O que será? – Análise musical

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Outubro 6, 2012 por Hiago Vinícius

Nem eu escapei do centenário de Jorge Amado…

Chico Buarque me chegou ao contrário. Primeiro a admiração, depois a vontade de vê-lo (só pesquisei mesmo sua obra quando foi anunciado, no Jornal da Globo, que a turnê “Chico” era um dos grandes shows de 2011 no Brasil), depois a literatura e, por fim a música. Quando finalmente ganhei o primeiro CD –  um dos mil da série “Perfil” que ele tem, apenas com alguns de seus maiores (não melhores) sucessos, uma das três “O Que Será?” (A Flor da Terra) estava nele. A música me pegou logo de cara. Nunca entendi o porquê das três versões. Achei que fosse só buarquice “normal” e deixei pra lá. Esses dias recebi, da Vitória, uma amiga, a missão de analisar e explicar essas três músicas aqui no blog. Fui pesquisar.
As três músicas foram feitas para o filme “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, sob a direção de Bruno Barreto, Eduardo Coutinho e Leopoldo Serran, que estreou em 1976 (dez anos após o lançamento do livro de [Salve] Jorge), com a atriz Sônia Braga interpretando Flor.
A primeira, “Abertura”, é dedicada ao primeiro marido de Dona Flor, e é tocada no momento em que a esposa o pega nos braços. O que significa que é uma ode à Vadinho.

O que será que lhe dá
O que será, meu nego? Será que lhe dá
Que não lhe dá sossego, será que lhe dá
Será que o meu chamego quer me judiar
Será que isso são horas dele vadiar
Será que passa fora o resto do dia
Será que foi-se embora em má companhia
Será que essa criança quer me agoniar
Será que não se cansa de desafiar
O que não tem descanso – nem nunca terá
O que não tem cansaço – nem nunca terá
O que não tem limite?

*
O que será, que será
Que dá dentro da gente que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo…
[O Que Será? (Abertura)]

A primeira estrofe fala muito das suas cafajestagens, da dor de cabeça que ele dava a Flor (“Que não lhe dá sossego, será que lhe dá/Será que o meu chamego quer me judiar/Será que isso são horas dele vadiar/Será que passa fora o resto do dia?”), mesmo assim, os últimos versos “Será que não se cansa de desafiar/O que não tem descanso – nem nunca terá/O que não tem cansaço – nem nunca terá/O que não tem limite?” quase que introduzem a segunda estrofe, onde ela tenta justificar porque continuava com o malandro, que causa nela um efeito “Que dá dentro da gente que não devia/Que desacata a gente, que é revelia/Que é feito uma aguardente que não sacia/Que é feito estar doente de uma folia…” e termina a música com a resignação: Vadinho é “O que não tem governo, nem nunca terá/O que não tem vergonha, nem nunca terá/O que não tem juízo…”. E é dos Vadinhos que ela gosta.

~
O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
*
O que será, que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
*
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
[O que Será? (À Flor da Pele)]

Essa música já é do marido morto, com a Flor viúva. O que está à flor da pele, nesse caso é, claramente, a saudade, “Que me bole por dentro, será que me dá/Que brota à flor da pele, será que me dá/E que me sobe às faces e me faz corar”. Mas por que faz corar? Não é bem uma saudade poética, bonita, a saudade de quem espera um dia abrir a porta e receber com um abraço apertado aquele que partiu – ou morreu. A saudade que Flor sente de Vadinho não é dos seus passeios ao pôr-do-sol. O “que nem é direito ninguém recusar/E que me faz mendigo, me faz suplicar/O que não tem medida, nem nunca terá/O que não tem remédio, nem nunca terá” é, provavelmente, o que Vadinho fazia com ela na cama, que provavelmente homem nenhum conseguirá fazer jamais. É a mesma sensação que está na segunda estrofe da Abertura, porém agora, quando seu começo é relocado para a segunda estrofe da Flor da Pele, torna-se uma espécie de desespero, algo “Que me queima por dentro, será que me dá/Que me perturba o sono, será que me dá/Que todos os tremores me vêm agitar/Que todos os ardores me vêm atiçar/Que todos os suores me vêm encharcar”. Como não li o livro e ainda não vi o filme, não tenho tanta certeza, mas acho que é o que justamente faz com que Dona Flor procure outro homem e case-se com o farmacêutico. Isso dá em Flor “uma aflição medonha [que] me faz implorar/O que não tem vergonha, nem nunca terá/O que não tem governo, nem nunca terá”. Vadinho é “O que não tem juízo”.

~
O que será, que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho.
*
O que será que será
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido
*
O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
[O Que Será? – A Flor da Terra]

Essa é a mais conhecida – e polêmica – de todas. Teve um sucesso estrondoso na época do filme, o que levou Chico a grava-la com Milton Nascimento ainda em 1976, no álbum “Meus Caros Amigos” e, claro, Chico Buarsticamente, foi fichada no DOPS.
Ok que o  Senhor Francisco Buarque de Hol(l)anda não – nem nunca foi – é um compositor alienado, nem foge da raia. Mas ele tinha uma carteirinha de Cliente Platinum Premier com a censura. O número de vezes em que ele prestou depoimento para esclarecer (!!!) as letras de suas músicas foi além do absurdo. Quando soube que essa letra em questão estava sendo analisada no DOPS, ele disse apenas “acho que eu mesmo não sei o que existe por trás dessa letra e, se soubesse, não teria cabimento explicar…”. Como disse lá em cima, era essa a versão (das 3) que estava no meu CD. Quando a ouvi da primeira vez, concluí: O que será? É a ditadura! E me achei gênio. Depois que fiz essa pesquisa rápida, já balancei, acho que não… E eu espero que não. Estou quase certo que não. A gente fica com essa imagem romântica de “no tempo lá da ditadura” na cabeça e acha que tudo que é “de lá do tempo da ditadura” é o ápice do divino maravilhoso. Mas que bom que Chico Buarque teve o toque de fazer coisas além da música engajada. Caso contrário, suas letras marcariam apenas um período histórico. E a arte deve(ria) ser atemporal. Não ser uma música engajada não diminui em nada seu valor. Afinal das contas, a música foi feita para um clássico maravilhoso da literatura. Voltando à discussão da letra, talvez refira-se a uma busca pela liberdade (“Que cantam os poetas mais delirantes/Que juram os profetas embriagados/Que está na romaria dos mutilados/Que está na fantasia dos infelizes”). Pode ser, claro, uma brincadeira ateísta “Que andam acendendo velas nos becos/(…) Que gritam nos mercados, que com certeza/Está na natureza, será que será/O que não tem certeza nem nunca terá/O que não tem conserto nem nunca terá/O que não tem tamanho”, ou, quem sabe, uma letra dedicada a um Deus de alguém sem religião. Que crê puramente. Inserindo no contexto do filme, claro que “O que não tem decência nem nunca terá/O que não tem censura nem nunca terá/O que não faz sentido” é o amor, o sexo, a sensualidade (que podem sempre andar de mãos atadas), o que faz muito sentido em “Porque todos os sinos irão repicar/Porque todos os hinos irão consagrar/E todos os meninos vão desembestar/E todos os destinos irão se encontrar/E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá/Olhando aquele inferno, vai abençoar”, lembrando que o Padre Eterno “nunca foi lá” talvez pelo voto de castidade que ele faz, e abençoa “porque todos os hinos irão consagrar” (quem sabe adotando “hino” como os versículos do Evangelho…). Fica sempre aberta a discussão: E é por isso que devemos sempre dizer que a tônica da música é a dúvida, porque, como disse o próprio Chico, “se soubesse, não teria cabimento explicar”. A poesia da letra é bela por si só. A estrofação é como uma concha abrindo desde o primeiro verso, “O que será, que será?”, atinge seu apogeu de abertura no sexto verso “E todos os meninos vão desembestar”, mantém esse ritmo meio de agonia até o nono verso “Olhando aquele inferno, vai abençoar” e fechando-se a partir do décimo verso “O que não tem governo, nem nunca terá”, deixando margem para um último verso sem rima “O que não tem juízo”. Desgovernando a música. O jeito como as rimas se alteram em algumas das estrofes vai dando uma ideia de pra-dentrismo e desabamento (em À Flor da Pele, dos desejos de Flor que vai sucumbindo e em A Flor da Terra, da moral de Flor, que vai perdendo a “decência”, ao aceitar dormir com os dois maridos).
Os nomes das músicas são bem sugestivos para o filme. “O Que Será?” não é, creio, apenas por ser o que mais se repete na música, mas sim “o que será que deu nessa mulher?”. Os dois parêntesis “À Flor da Pele” e “A Flor da Terra” são claramente um jogo de palavras com o nome da personagem: A Flor da Terra mostra desapego dos valores mais cristãos e uma personagem mais terrena.

Enfim, é isso. Não é um ensaio, um artigo científico, ou coisa assim. Apenas uma análise pessoal de uma dúvida que até eu mesmo sempre tive. Se funcionar, talvez faça isso mais vezes – talvez não. Comentem, critiquem, espalhem, ou mantenham-se impassíveis, agregar informações é sempre bom.

FONTE DE PESQUISA
Chico Buarque – Meus Caros Amigos (www.chicobuarque.com.br)
85 anos de Música Brasileira” Vol. 2, 1ª edição, 1997, editora 34 – Humberto Werneck
Análise de Letras – O Que Será (http://analisedeletras.com.br/chico-buarque/o-que-sera/)
Wikipédia – Dona Flor e Seus Dois Maridos (filme) (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dona_Flor_e_Seus_Dois_Maridos)
Wikipédia – Dona Flor e Seus Dois Maridos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Dona_Flor_e_Seus_Dois_Maridos)

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3 thoughts on “O que será? – Análise musical

  1. Bruno Kopte diz:

    Interessante teu ponto de vista, não conhecia diversos detalhes. Talvez possa colaborar aqui por falar de uma interpretação de minha mentora psicanalítica, de que a música trata é de Eros e Thanatos, que na sua interação geram tudo que o “será” fala de.

    Claro que só vale se você considerar válida a psicanálise…

  2. Fabio Carvalho diz:

    Muito bom, me ajudou a esclarecer varias duvidas que tinha

  3. muito bom seu ponto de vista, me ajudou bastante, está de parabéns Att: isaque santos

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